(ana)Crónicas de pequenitos de Portugal
(ana)Crónica 2
Tinham perdido o Tino!
O TSO estava todo lá e o São Bento também.
Bebia-se e comia-se à farta e à fartazana. Grande folia. Por lá o carnaval é todos os dias, é de aproveitar.
Ave e Madalena carpiam de boca cheia por Tino.
Gozo, de Baco, servia-lhes de consolo até à última gota.
Antão, pobre Santo dos animais, já tinha sido apeado do andor e à força comprimido no buraco do altar, agora mais leve e escavacado, quase sem vestes e sem uma notinha sequer. Não fosse ele de barro bem cozido, e Rena, capaz de vender tudo e todos, havia-o dado ao diabo a comer, “Leitãozinho à Sant’Antão com miúdes Eira-Tuna”.
Era o regabofe na tasca do Raivinha. Gina animava as cortes dos Reis, grandes dotes lhe deu o Senhor, não fosse ter sido traída pelo ar de quem já serviu e pediu; não se pode ter tudo.
Donça e Tunes abençoados por Jesus, alegres e contentes, mas de faxina, serviam os Imperadores.
Vira e Tuci, frustradas de pombo correio, junto de firma Pereira bafejada de língua, ditavam o bom ou mau clima nas cortes.
Seca, ocupante biliosa, respirador e expirador das coisas escorridas e gordurosas. Juiz em causa própria, de peruca de crina de cavalo, com o devido respeito ao animal, por tão inteligente e imerecedor de tal assemelho, preside ao TSO. Dizem-na a reencarnação de Bernardo Gui na melhor versão mulher-homem, capaz, para consolo dos rechonchudos e anafados portadores de proeminência abdominal, de acrobacias de rotação corporal em suspenso umbigo com umbigo e nada mais; e não é pouco.
O da mitra estava todo ele Rouge, bem bebido, já só balbuciava uns grunhidos contra os cavalos brancos da firma Pereira, a pureza da virgem e sagrada riqueza, a fazer lembrar, na versão ainda mais pimba novo-rico, o sonho americano, a Packard Twelve branca blindada, tornada preta dos ventos do leste. Na firma Pereira viam-se - aliás, não enganava nem cego, nem surdo, nem mudo, coisa dada ao exagerado, com o devido respeito às dignas peixeiras - vá, por mor dos pecados, as meias rotas do TSO.
Até que irrompe a fogueteira, figura abjeta, sem dever nada à beleza, coitada, só deus e a pátria sabem o sacrifício; acabada de chegar do festival da fealdade do qual, obviamente - não se vê logo à distância ?!!-, saiu vencedora por uma margem que só visto, o talhante que o diga, há tantos anos acostumado, desde pequenito, a limpar disso p´ras senhoras. A claque de súbditas(os) estafadas(os), prestam-lhe vassalagem, não vá ela deitá-las(os) pela rua da amargura à primeira escorregadela, é que ela tem língua p´ra sei lá quem e o quê; quem é que agora se vai meter na lama com ela, ela já lá está, tanto se lhe dá como se lhe deu, olha, olha. O gene do descabelo dela cuspidinho e pegajoso é igualzinho ao desta e daquela, por aí não está sozinha, uma verdadeira hipster couve roxa abençoada pelos pássaros, malvados pássaros.
Alto aí, diz a fogueteira. Mas afinal o que é isto? Ah?! Quem é que autorizou esta m…? Festas nas minhas costas??!! Renaaaaa, já aqui, depressa!!! Toca a fazer a higiene devida.
Rena, submisso, vem de ranga malho a lamber os dedos e assoar-se aos cotovelos sussurrando: ai jesus, ai jesus, e agora? Que deus ma acuda que é desta que me põe a cavanir. Nisto, num repente, sem mais folego, desata em voz alta e comprometida a dizer: É tudo surpresa, é tudo surpresa, é p´ra ti. Estamos todos a aguardar ansiosos a tua chegada p´ra começar a festa.
Desconfiada, a fogueteira, troteando com o seu porte avantajado, abençoa-o e diz-lhe: Olha meu menino,…, se me mentes corro-te a ti e a todos à paulada e meto-vos a todos nas minhas saias. Olha que eu sou aquela, a Rammm rrruuural. Tráz os foguetes, mexe-te, rápido.
E continua, a fogueteira, agora olhando p´ro TSO, dizendo: Oh Seca !! , diz aí ao Raivinha p´ra trazer a tasca p´raqui e que se ponha mais essa cambada toda do Uno a Eire apanhar as canas e é se quer!!! Oh chibo !! …
(todos mandam a mão ao queixo e faz-se um silêncio de medo)
… anda cá p´raqui pa mandares o morteiro, tu e essas matrioskas, ViraSecaTuciFacio. O padreca do Anho e os acólitos RelOunho que se ponham a ungir as brasas.
Agora é que é - diz o Tonho - olha, olha pá Orges, sempre a mandar vir.
Eis que finalmente começa o foguetório.
Tratratratratratratra pooooowww …
Nisto, de repente, pouuuullll, e nada mais, ouve-se o da foice a cegar a firma, o Rena a bater no ferro, o Aulo nos alforges e a fogueteira de saias em roda a fazer a festa toda vociferando, diga-se em abono da verdade e da fealdade, e espumando: - Se não fosse Eu…, queria ver, Eu…, Eu…, Eu…, é que penso nisto tudo, Eu…, sai tudo da minha cabeça, Eu…, e o xande do alerta, pindéricos desgraçados, lambe-botas, cobardes, mal-agradecidos, Euuuuu é que mando nisto tudo e o Rena que se ponha a pau.
O pasto está arder …
(Arnaldo Ferreira, autor)
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