(ana)Crónicas de pequenitos de Portugal (ana)Crónica 1 Estava ao rubro a Festa de Santo Antão. Tino, de baixa postura, mas já com influência junto do TSO – Tribunal do Santo Ofício -, diga-se em abono da verdade apenas junto dos juízes a quem, segundo eles, haviam sido roubados todos os privilégios por anunciarem a boa nova do vinde a nós servir-nos e sereis salvos, rompia excitadíssimo pela dançantaria adentro cantando e dançando fitando Madalena a quem sua jovem filha havia de prestar, pro bono, inestimáveis serviços em sua defesa e da dele acima de tudo. Nunca Madalena tinha pensado negar o seu juramento ao fazer-se reclamante das causas do Tino, uma espécie de Afonsinho Costa, eram coisas do diabo amaldiçoado. Era já ao cair da tarde e lá iam estafados, mas sem dar parte fraca, as cantadeiras com ar sério e grave, Madalena e a compostora, mestre Ave, bem à frente destas ia o Silva debaixo do pálio com a mitra vermelha na cabeça, não fosse o céu cair-lhe em cima. Atrás de si o andor com Santo Antão, padroeiro protetor dos animais, exibindo debaixo do braço direito contra o tronco um leitãozinho, o porquinho Rena, assim o chamava o povo. As crianças riam, também riem-se por tudo e por nada, têm o sangue na guelra e o mundo p´ra trás das costas, não têm um bocadinho de dó e piedade, os garotos chamam-lhe o Tuna, igualzinho ao pai, e o Eira, não se sabia a quem saía, comem da firma Pereira que se fartam. O Gozo, raio-parta o Gozo, tinha de ser ele e estar bêbado, bem diga-se que nunca lhe arrama, mal pega no Santo, de tanto lhe pegar, tantos milagres fez o Santo ao homem, parte a patita ao porquinho. É sempre o mesmo, de bêbado insulta o Santo e de sério, quando este lhe reza, jura-lhe fidelidade até á morte e depois dela. Anunciava-se a rematação no largo da casa do povo de todo o tipo de pecinhas do principal animal de estimação, não fosse inverno, com o Reis passado, pequenitos nas cortes de Portugal, com o pãozinho quente da Gina padeira nem a salgadeira o via, era tal a fome. Madalena embevecia-se por Gozo e este sabia bem disso, tanto é que estavam um para o outro como a pipa está para vinho. Chega a hora da rematação e Gozo, com todo o seu armanço, desata a rematar tudo o que via, remata tudo e não deixa nada. Madalena ria de felicidade sucumbida ao farnel, imaginava-se agarrada ao pão com chouriça suculenta na tasca do Raivinha. Silva encontrava-se junto à firma Pereira que abanava que se via. Seca, mas redonda, invejosa que se ruía, má como as cobras venenosas, chama por Donça, sonsinha, enquanto o Tunes se queixa do mal que a laranjada dos Couto e da Sepol lhe fazia mas nem por isso deixava de gostar dela, rogava a Jesus por ela. Na tasca do Raivinha dançava-se o Vira. (Arnaldo Ferreira, autor)

Comentários

  1. Genial esta (ana)Crónica. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Fico ansiosamente à espera da próxima. Os pequenitos de Portugal são inspiradores

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